O ensino de Literatura no Ensino Médio

Na minha especialização em Leitura e Produção de Textos, entre outras várias e férteis discussões esteve a questão do ensino de Literatura no Ensino Médio, e como este estudo deveria ser. Infelizmente ainda vigora na maioria das escolas, pública e particulares, um mero apelo à memória de datas e "características". Lamentável. Fruição e reflexão passam longe.

Transcrevo aqui um artigo saído hoje (23 de novembro), no Jornal Diário do Nordeste, no caderno Cultura.

"De acordo com LDBEN nº 9.394/96, em seu artigo 35, algumas metas são indispensáveis para que o ensino de língua portuguesa se faça eficiente e atinja objetivos essenciais no ensino médio: consolidação e aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento dos estudos; reparação básica para o trabalho e para a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; e aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.

É exatamente sobre o terceiro tópico que recai a literatura posta aqui em seu caráter strictu sensu: arte que se constrói com palavras. Se a literatura é arte, a arte serve para quê? A busca por mais humanidade nas formações de nossos jovens, mesmo no que concerne um conhecimento mais maduro sobre o próprio emocional e sensibilidade, é ingrediente indispensável de qualquer jovem, como bem já ressaltou CÂNDIDO, 1995, p. 249: ´Entendo aqui por humanização [...] o processo que confi rma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, enfim para o semelhante´.

Antigamente, os textos literários serviam apenas como objeto de culto ou, então, como suportes das análises sintáticas e morfológicas. Hoje o alargamento das funções emotivas em sala de aula fez fluir o letramento, como estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita´ (SOARES, 2004, p. 47).

As formas de leitura
O uso de linguagens que abordam contextos de sensibilização em torno de movimentos e causas sociais devem ser bem avaliados quando no processo de escolha para utilização em sala de aula. Algumas formas de literatura, postas como marginais, são trazidas para sala de aula como exemplos, sem quaisquer cuidados quanto á análise estética da obra. Então nunca é demais lembrar que há um limite para a inserção de categorias ditas literárias na escola. Apesar de terem boas intenções, algumas literaturas de cordel, rap, letras de música, são insuficientes por falta de qualidade estética.

É necessário que a partir da escolha das obras, o leitor sinta-se então motivado para a leitura. A fruição estética, nesse caso, é fundamental. Diz respeito à apropriação que o leitor faz da obra, concomitante à participação do mesmo leitor na construção dos significados desse texto; para isso, é interessante que a princípio seja estipulado um tempo para a leitura individual para só então descobrir outros significados para o texto na leitura coletiva. Tudo a fim de uma melhor compreensão de si e do outro.

Parece-me, no ensino fundamental, que o prazer pela leitura é melhor explorado e contextualizado e por isso mesmo a dimensão formativa do leitor é mais eficazmente trabalhado no seu aspecto de humanização. Tal característica se perde no ensino médio quando a turma é incitada a decorar épocas, escoas literárias, datas, autores e mais autores, deixando o estudo de texto resumido tão-somente a trechos e explicações menos densas.

A construção de leitores
É preciso formar na sala um leitor crítico em detrimento superficial, vítima, como bem coloca Humberto Eco. A escola deve prestar muita atenção na busca por métodos que formem nos alunos o gosto literário, o conhecer a tradição literária local e o oferecer instrumentos para uma penetração mais aguda nas obras; a escola não pode desconsiderar a leitura propriamente dita e privilegiar atividades de metaleitura, que seriam atividades paralelas sem funcionalidade maior de compreensão do texto.

Contudo, é necessário que se tenha em sala um professor bem formado que, além de mediador de leitura, portanto leitor especializado, também possuir um conhecimento mais especializado, no âmbito da teoria literária.

É preciso também que a própria escola possua um projeto pedagógico que privilegie um contato de seu alunado médio com o desenvolvimento correto da leitura e sua capacidade de interpretá-la, não apenas decorando datas de passagem e autores. Usa-se ou não o livro didático? Quais são as obras e os autores que devem fazer parte do ´acervo básico´, aqui entendido como livros que serão lidos integralmente durante os três anos do ensino médio? (seleção que pode ser reavaliada periodicamente - talvez de três em três anos -, desde que não comprometa o fluxo proposto inicialmente aos alunos). Que projetos desenvolver com vistas a possibilitar que os alunos leiam outros livros além das indicações do ´acervo básico´? Nessa vertente de discussões, inclui-se a possibilidade de realização de projetos interdisciplinares, que levem à reflexão sobre os gêneros literários e outros gêneros, sobre a linguagem literária e as outras linguagens, entre outras relações possíveis. A literatura brasileira deve ser prioridade, incluindo obras de tradição e contemporâneas significativas. Desse modo, diálogo com outras áreas (artes plásticas e cinema) também faz-se indispensável, atendendo, pois, a atual perspectiva multicultural.

O discurso poético
Outra problemática encontrada no trato com a literatura mais condenada pelos próprios estudantes é o olhar sobre a poesia, quase sempre realizada de maneira sacal e sem objetivos imediatos. É importante que o professor conduza a leitura de poesias pelo o olhar da arquitetura do poema nas suas diversas dimensões - métodos que permitam ver e entender a poesia como uma prática social integrada à vida cotidiana.

Outro ponto frágil respinga na constância de algumas escolas submeterem seu programa ao programa do vestibular: o programa deve oferecer ao aluno condições satisfatórias de aprendizagem para que possa sair-se bem em provas que exijam um conhecimento compatível ao que foi ensinado´. Assim, temos uma mudança de foco no estudo literário: parte-se do livro em estudo para o contexto histórico.

A história literária deve ser apenas um aprofundamento do estudo literário; conhecer a tradição literária sim, mas decorar estilos de época, não. É importante deixar claro aos alunos as transgressões e as convenções comuns à maioria dos autores da época.

Outro ponto: literatura não pode ser manual de virtude e boa conduta. Por lidar com emoções é importante que os estudantes tomem conhecimento de certas ´perversões´ na literatura que é comum a qualquer ser humano.

Propostas de mudança
Dessa forma, a escola deve ser um local propício para a aprendizagem da literatura. È necessário criar espaços de leitura. As bibliotecas escolares têm papel fundamental no sucesso desse trabalho de iniciação literária e de formação do gosto. É preciso que existam, que tenham acervos significativos, que estejam disponíveis para todos, que o acesso ao livro seja direto, que as técnicas biblioteconômicas de catalogação e armazenagem dos livros sejam adequadas a leitores em formação e sejam a eles explicadas, quando necessário.

Mais importante que tudo, talvez, é que a escola crie, como parte de suas atividades regulares, demandas autênticas de leitura, capazes de fazer da biblioteca um lugar de freqüência praticamente cotidiana.

Se quisermos que o aluno leia e considerarmos que esse é o meio mais eficiente para ele conseguir o saber que a escola almeja, então é preciso mudar o currículo, retirar dele o que é excessivo e não essencial. Torná-lo realmente significativo para alunos e professores."

SARA REBECA AGUIAR DE CARVALHO*
Colaboradora

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