Eu-lírico e subjetivismo: uma reflexão


Artigo resumido: O uso irrefletido de alguns termos nos estudos literários
Por Tânia Barros


Um maior cuidado e reflexão no uso de termos fundamentais da Teoria Literária seriam muito bem vindos aos estudos da literatura principalmente no ensino médio. É preciso problematizar, aprofundar os conceitos muitas vezes usados no estudo da literatura sem apropriada cautela, como os de: subjetividade, interioridade, eu-lírico, autor, sujeito da enunciação. O uso indiscriminado sem o acompanhamento de reflexão, vem gerando tanto nos estudantes do ensino médio como nos estudantes do Curso Superior de Letras, confusões que distorcem e dificultam ainda mais a lida com a disciplina quando este último, por exemplo, começa a lecionar. Este uso frouxo de conceitos e termos dos estudos literários produz distorções que afastam alunos iniciantes da abstração exigida para tal lida.
Num mundo em constante reinterpretarão da realidade e mudanças rápidas em todas as áreas do saber, cabe mais do que nunca uma atenção maior no que toca o ensino da Teoria Literária. Questionar atualmente a subjetividade, o fazer poético, o sujeito enunciador, ficção e realidade é o objetivo deste breve artigo.

Gêneros literários e questionamentos

A questão dos gêneros literários produz discussões e reflexões desde a antiguidade, tomando um tom contestador e renovador pela época do romantismo. Longe está de produzir idéias estanques ainda hoje. Teóricos atuais se empenham em analisar os gêneros historicamente, como Vítor Manuel e Yves Stalloni, sendo este viés histórico um dado que, em parte, explica o fato de não produzirem regras, fórmulas, mas questionamento do fazer literário, facilitando a produção de reflexões nos estudantes quanto ao “modelo aristotélico”.
Trata-se, pois, de um esforço epistemológico de justificar, sim, mas também de contestar a tripartição aristotélica, como diz Stalloni, “juntando-lhe diversos corretivos”.

Subjetividade é pura interioridade (?) e outros conceitos para reflexão.

Será que a subjetividade relacionada à poesia é somente o mundo interior do autor? Será o eu-lírico o autor mesmo? É correto dizer que certos poemas são ficção e outros são representações do real?
A subjetividade do poeta é aquela que em contato com o meio, ou seja, como o exterior, será ou não expressa através do poema. Tal subjetividade está, pois, em diálogo com os objetos do mundo. O subjetivismo é o que está reduzido ao sujeito, segundo uma definição de dicionário (Aurélio), no entanto, em nossa linha de raciocínio aqui, o subjetivo é o que existe no sujeito, sim, mas de forma que quando o poeta se expressa por intermédio do poema, isto que é a interioridade dele, agora é, também, a expressão desse eu na relação com o exterior. Subjetivamente, ou seja, de forma pessoal, esta realidade é percebida e o poeta a reconfigura na corporificação da obra. O artista dá forma a este real percebido, representando-o com sua especificidade existencial que lhe permite extrair de si o real desmascarado.
A poesia, pois, não é apenas a realidade perceptível, é o real dessa realidade que foi desmascarada pela percepção individual do poeta. Nas palavras de Rogel Samuel, “Real é tudo que só pode ser concebido pelo intelecto”. A subjetividade, a visão pessoal do artista, destrona, desloca a realidade distorcida, a realidade percebida pela sociedade.

O eu-lírico é o eu-mesmo?

Sendo o eu-lírico uma entidade conectada à subjetividade do autor, é também o sujeito enunciador do poema. Mas o sujeito-lírico é ou não o autor? Eis uma indagação dos alunos, pois que se passou por muito tempo a idéia que a poesia não é ficção. Ora, há os atuais poemas sem aparentemente sem eu-lírico, poemas descritivos, sem que apareça claramente o sujeito-lírico. No entanto, está ali uma subjetividade, sim, a visão individualizada do mundo, o expressar de algo que se dá de modo diferenciado, impondo-se, tornando clara a interação com o mundo e um transbordamento do eu. A subjetividade é, pois, uma singular relação com o real, portanto, não é autônoma. Existe com o mundo que perfaz o ser e o surpreende, causando o espanto, a poesia.

O eu-lírico fora de si

Michel Collot, contrariamente ao lirismo hegeliano, segundo o qual o poeta constituiria “um mundo subjetivo, fechado e circunscrito”, considera o eu-lírico fora de si mesmo, interado e interagindo no cotidiano, numa dialética realizada entre mundo interior e mundo exterior. Esta seria capaz de mover de dentro do sujeito-lírico um enunciado inteligível ao outro, uma vez que sua compreensão sensível (sentidos, sentimentos) de mundo seria um “estar-no-mundo” e não uma interioridade estéril, fechada em si mesma.
Este sujeito fora de si que pertence a si mesmo, mas também ao mundo que o circunscreve, com o mundo co-move-se, espanta-se e compartilha sua individualidade comovida pelo real. O sujeito lírico moderno na tensão que lhe é proporcionada pelo diálogo com seu exterior “se desaloja” – termo usado por Collot – de si mesmo. Não há aqui uma alienação de si, pois que esta subjetividade é paradoxalmente ainda mais dona de si, mais real quanto maior for o diálogo eu/mundo.
Tal sujeito é transgressor da opressão da realidade que o tranca em si mesmo. Desta forma passa a ser co-autor com o mundo, e deste transbordamento vai constituindo a si mesmo.

Michel, Collot. O Sujeito-Lírico Fora de Si – Tradução de Alberto Pucheu..
Samuel, Rogel. Manual de Teoria Literária. Vozes. 1984.
Stalloni, Yves. Os Gêneros Lierários. RJ:Difel, 2003.

Tânia Barros (Trechos adaptados do seu artigo:Questões sobre o eu-lírico)

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